Quando cheguei ao museu fui conduzida até à sala onde decorria o ateliê sobre doçaria conventual ministrado pelo chef Raul Sousa. Os doces aromas já pairavam no ar. Percorri a sala com os olhos e lá estava ela, a Ilídia, com o caderninho de apontamentos numa mão e a máquina fotográfica na outra, sempre atenta a todos os pormenores. A minha chegada fez com que os seus índices de atenção diminuíssem- e ela fez-me questão de o confirmar mais tarde- porque começámos a trocar impressões sobre tudo o que o chef proferia. Ávidas de saber, apontávamos todas as dicas, os graus de cozedura adequados, os pontos das caldas de açúcar e conseguíamos de quando em vez tirar umas fotos mais ou menos repentinas que tentavam fugir às cabeças do público das cadeiras dianteiras. De vez enquanto arrepiávamo-nos com o excesso de gemas e de açúcar utilizados. Bombas calóricas em perfeita ebulição encontravam-se à nossa frente e destilavam cheiros equivalentes a cantos de ninfas: barrigas de freira, papos de anjo, fatias de Tomar, toucinho do céu, palhas de Abrantes, arrepiados do Convento de Leiria, pão de rala de Santa Helena do Calvário de Évora. Quando as iguarias começaram a sair do forno o poder de concentração diminuiu ainda mais. Passaram para segundo plano as intenções de anotar o que quer que fosse. Para isso também contribuiu a afirmação do chef Raul de que partilharia as receitas connosco e por escrito. Assim passámos só a anotar uma ou outra curiosidade. Foi sem dúvida uma tarde bem passada que culminou numa prova, sem precentes, de todas as iguarias conventuais confecionadas.